Entendendo os termos

Altas habilidades também produzem dificuldade escolar

Criança muito capaz que vai mal na escola é uma cena mais comum do que parece. E ela é quase sempre lida como preguiça.

Por Cristiane Rosa · · 3 min de leitura

Existe um tipo de caso que demora demais para chegar ao consultório, porque ninguém desconfia. É a criança visivelmente capaz, que fala muito bem, sabe coisas que surpreendem os adultos, e vai mal na escola.

A leitura que ela recebe é quase sempre a mesma: é inteligente, mas é preguiçoso.

Por que a escola pode ficar difícil

Tédio. Conteúdo que ela já domina, repetido por semanas. A atenção sai da sala. De fora, parece desatenção.

Descompasso entre pensar e executar. Ela chega ao resultado de cabeça e não consegue mostrar o desenvolvimento. Perde ponto por não seguir o método, mesmo acertando.

Perfeccionismo. Criança que acerta tudo com facilidade tem pouca prática em errar. Quando enfim encontra algo difícil, a experiência é tão desconfortável que ela evita. Não entrega, não tenta, diz que é bobagem.

Interesse muito seletivo. Mergulha fundo no que a fascina e não consegue mobilizar nada pelo resto.

Descompasso social. Interesses que não conversam com os dos colegas da idade dela. Isso pesa mais do que se imagina.

Questionar tudo. O que em casa é curiosidade, na sala com trinta alunos pode virar atrito com o professor.

Dupla excepcionalidade

Este é o cenário mais difícil de enxergar, e vale conhecer o nome.

Uma criança pode ter alta capacidade em uma área e uma dificuldade real em outra. Alta capacidade de raciocínio com dislexia. Vocabulário excelente com disgrafia. Compreensão avançada com dificuldade grave de organização.

O que acontece é que uma condição mascara a outra. A capacidade compensa a dificuldade o suficiente para o desempenho ficar mediano, e a dificuldade impede que a capacidade apareça. O resultado é uma criança que parece comum, com as duas coisas passando despercebidas. O quadro aparece quando a demanda cresce e a compensação não dá mais conta, muitas vezes no 6º ano ou no ensino médio.

O que a lei prevê

Altas habilidades ou superdotação fazem parte do público-alvo da educação especial, ao lado de deficiência e transtornos globais do desenvolvimento. Isso dá direito ao Atendimento Educacional Especializado.

Uma diferença importante: para alunos com deficiência o AEE é complementar, no sentido de apoiar o que falta. Para altas habilidades ele é suplementar, ou seja, existe para ampliar e aprofundar.

Na prática isso significa enriquecimento curricular, projetos, aprofundamento, e não mais exercícios do mesmo.

O que não ajuda

Dar mais do mesmo. Terminar antes e receber mais vinte contas iguais ensina que ser rápido é castigo.

Adiantar de ano sem avaliar o resto. Avanço de série resolve o conteúdo e pode piorar o social e o emocional. Precisa ser decisão avaliada, não reflexo.

Cobrar pelo potencial. "Você poderia tirar dez" é uma frase que produz uma quantidade enorme de sofrimento.

Quem avalia o quê

O diagnóstico de altas habilidades ou superdotação envolve avaliação psicológica, com instrumentos padronizados. Não é o que eu faço.

O que a avaliação psicopedagógica traz é o mapa do funcionamento na aprendizagem: em que a criança de fato avança rápido, onde ela trava, se existe alguma dificuldade específica escondida atrás da capacidade, e o que ajustar na escola.

Nos casos de dupla excepcionalidade, o mapa do funcionamento tende a ser o documento que finalmente explica anos de contradição entre a criança que a família vê em casa e o boletim que chega da escola.

Respostas rápidas

Aluno com altas habilidades tem direito a algum apoio na escola?

Sim. Altas habilidades ou superdotação fazem parte do público-alvo da educação especial, junto com deficiência e transtornos globais do desenvolvimento. Nesse caso o Atendimento Educacional Especializado é suplementar, ou seja, amplia e aprofunda, em vez de complementar o que falta.

Criança superdotada pode ter dificuldade de aprendizagem?

Pode, e isso tem nome: dupla excepcionalidade. A alta capacidade em uma área mascara a dificuldade em outra, e o resultado é uma criança que parece mediana, com as duas condições passando despercebidas.

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