Entendendo os termos
Altas habilidades também produzem dificuldade escolar
Criança muito capaz que vai mal na escola é uma cena mais comum do que parece. E ela é quase sempre lida como preguiça.
Existe um tipo de caso que demora demais para chegar ao consultório, porque ninguém desconfia. É a criança visivelmente capaz, que fala muito bem, sabe coisas que surpreendem os adultos, e vai mal na escola.
A leitura que ela recebe é quase sempre a mesma: é inteligente, mas é preguiçoso.
Por que a escola pode ficar difícil
Tédio. Conteúdo que ela já domina, repetido por semanas. A atenção sai da sala. De fora, parece desatenção.
Descompasso entre pensar e executar. Ela chega ao resultado de cabeça e não consegue mostrar o desenvolvimento. Perde ponto por não seguir o método, mesmo acertando.
Perfeccionismo. Criança que acerta tudo com facilidade tem pouca prática em errar. Quando enfim encontra algo difícil, a experiência é tão desconfortável que ela evita. Não entrega, não tenta, diz que é bobagem.
Interesse muito seletivo. Mergulha fundo no que a fascina e não consegue mobilizar nada pelo resto.
Descompasso social. Interesses que não conversam com os dos colegas da idade dela. Isso pesa mais do que se imagina.
Questionar tudo. O que em casa é curiosidade, na sala com trinta alunos pode virar atrito com o professor.
Dupla excepcionalidade
Este é o cenário mais difícil de enxergar, e vale conhecer o nome.
Uma criança pode ter alta capacidade em uma área e uma dificuldade real em outra. Alta capacidade de raciocínio com dislexia. Vocabulário excelente com disgrafia. Compreensão avançada com dificuldade grave de organização.
O que acontece é que uma condição mascara a outra. A capacidade compensa a dificuldade o suficiente para o desempenho ficar mediano, e a dificuldade impede que a capacidade apareça. O resultado é uma criança que parece comum, com as duas coisas passando despercebidas. O quadro aparece quando a demanda cresce e a compensação não dá mais conta, muitas vezes no 6º ano ou no ensino médio.
O que a lei prevê
Altas habilidades ou superdotação fazem parte do público-alvo da educação especial, ao lado de deficiência e transtornos globais do desenvolvimento. Isso dá direito ao Atendimento Educacional Especializado.
Uma diferença importante: para alunos com deficiência o AEE é complementar, no sentido de apoiar o que falta. Para altas habilidades ele é suplementar, ou seja, existe para ampliar e aprofundar.
Na prática isso significa enriquecimento curricular, projetos, aprofundamento, e não mais exercícios do mesmo.
O que não ajuda
Dar mais do mesmo. Terminar antes e receber mais vinte contas iguais ensina que ser rápido é castigo.
Adiantar de ano sem avaliar o resto. Avanço de série resolve o conteúdo e pode piorar o social e o emocional. Precisa ser decisão avaliada, não reflexo.
Cobrar pelo potencial. "Você poderia tirar dez" é uma frase que produz uma quantidade enorme de sofrimento.
Quem avalia o quê
O diagnóstico de altas habilidades ou superdotação envolve avaliação psicológica, com instrumentos padronizados. Não é o que eu faço.
O que a avaliação psicopedagógica traz é o mapa do funcionamento na aprendizagem: em que a criança de fato avança rápido, onde ela trava, se existe alguma dificuldade específica escondida atrás da capacidade, e o que ajustar na escola.
Nos casos de dupla excepcionalidade, o mapa do funcionamento tende a ser o documento que finalmente explica anos de contradição entre a criança que a família vê em casa e o boletim que chega da escola.
Respostas rápidas
Aluno com altas habilidades tem direito a algum apoio na escola?
Sim. Altas habilidades ou superdotação fazem parte do público-alvo da educação especial, junto com deficiência e transtornos globais do desenvolvimento. Nesse caso o Atendimento Educacional Especializado é suplementar, ou seja, amplia e aprofunda, em vez de complementar o que falta.
Criança superdotada pode ter dificuldade de aprendizagem?
Pode, e isso tem nome: dupla excepcionalidade. A alta capacidade em uma área mascara a dificuldade em outra, e o resultado é uma criança que parece mediana, com as duas condições passando despercebidas.