Raciocínio lógico-matemático

Discalculia: quando a dificuldade com matemática deixa de ser normal

Toda criança acha matemática difícil em algum momento. A discalculia é outra coisa, e o sinal mais confiável não está nas notas.

Por Cristiane Rosa · · 3 min de leitura

Existe uma frase que ouço em quase toda anamnese: "matemática ele nunca foi bem". E ela é verdadeira para uma quantidade enorme de crianças que não têm nada além de uma base mal construída ou uma péssima relação com a matéria.

A discalculia é mais rara e mais específica do que isso. Estima-se que atinja entre 3% e 6% da população escolar, número parecido com o da dislexia.

O que está por trás

A discalculia não é dificuldade de decorar tabuada. O núcleo dela está em algo mais básico, chamado senso numérico: a capacidade de perceber quantidade sem precisar contar.

Você usa esse senso o tempo todo sem notar. Olha para duas filas no mercado e sabe qual é menor sem contar cabeça por cabeça. Vê três moedas na mesa e sabe que são três, sem apontar uma por uma. Essa percepção aparece muito cedo no desenvolvimento, antes de qualquer aula.

Na discalculia, essa base é frágil. E quando a base é frágil, tudo que se constrói em cima fica instável. A criança até decora procedimentos, mas eles não se apoiam em nenhuma noção de quantidade. Ela faz a conta sem ter ideia se o resultado é plausível.

Sinais que aparecem antes das notas caírem

Notas ruins em matemática são um sinal tardio e pouco específico. Estes aqui dizem mais:

Na educação infantil e no começo do fundamental A criança não consegue dizer qual grupo tem mais objetos sem contar um a um. Erra a contagem porque pula números ou repete. Não associa o número escrito à quantidade que ele representa.

Dos 7 aos 10 anos Continua contando nos dedos para somas pequenas, tipo 3 + 4, muito depois de os colegas terem parado. Não consegue recuperar fatos simples de memória, então recalcula tudo toda vez. Confunde sinais de mais e menos mesmo entendendo cada operação separadamente. Erra a ordem dos algarismos ao escrever números grandes.

A partir dos 10 Não estima. Se você perguntar quanto dá mais ou menos 48 mais 51, ela não arrisca um valor aproximado, precisa fazer a conta. Se perde em problemas de vários passos, mesmo entendendo cada passo isolado. Tem dificuldade com dinheiro, troco, horas e medidas.

O sinal que mais chama minha atenção é a ausência de estimativa. Uma criança sem discalculia erra a conta, mas costuma perceber que o resultado ficou estranho. Uma criança com discalculia divide 100 por 4, chega em 250 e segue em frente.

O que não é discalculia

Vale separar, porque o tratamento é diferente:

Ansiedade com matemática. A criança sabe fazer em casa, com você do lado, e trava na prova. O bloqueio é emocional, e melhora quando a pressão diminui.

Buraco na base. Ela não entendeu fração no ano passado e agora nada de porcentagem faz sentido. É acúmulo, não transtorno. Se resolve retomando o ponto onde a corrente quebrou.

Atenção. A criança entende o conteúdo, mas erra por pular etapa, ler o enunciado pela metade ou perder o fio no meio da conta. Aqui o alvo é outro.

As três coisas podem, claro, aparecer junto com a discalculia. Uma criança que sofre com números há anos acaba desenvolvendo ansiedade em cima disso.

O que fazer

Se a dificuldade persiste há mais de seis meses, mesmo com a escola trabalhando o ponto, vale investigar. A avaliação psicopedagógica olha o raciocínio lógico-matemático de perto: como a criança pensa a quantidade, que estratégias usa, onde exatamente a lógica dela se perde.

Aqui também vale o alerta de sempre. O diagnóstico de discalculia é fechado por médico ou equipe multiprofissional. O que eu produzo é o mapa de como seu filho pensa matemática, o plano de intervenção e o encaminhamento, quando os achados apontam para isso.

Uma frase que digo em toda devolutiva nessa situação: criança com discalculia aprende matemática. Ela só não aprende do jeito que a sala inteira está aprendendo.

Respostas rápidas

O que é discalculia?

É uma dificuldade persistente com números, quantidades, fatos aritméticos e procedimentos de cálculo, que se mantém mesmo com ensino adequado e sem outra explicação sensorial, neurológica ou social. Afeta entre 3% e 6% da população escolar.

Como saber se meu filho tem discalculia ou só não gosta de matemática?

O sinal mais confiável não está na nota, e sim na noção de quantidade. Criança com discalculia costuma continuar contando nos dedos para somas pequenas muito depois dos colegas, e tem dificuldade de dizer, sem contar, qual de dois grupos tem mais objetos.

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