Leitura e escrita

Escreve tudo errado mesmo no 5º ano: quando a ortografia preocupa

Errar ortografia faz parte do aprender a escrever. O que muda o quadro é o tipo de erro, e não a quantidade.

Por Cristiane Rosa · · 3 min de leitura

Toda criança erra ortografia. A escrita do português tem irregularidades que não se deduzem, só se aprendem: por que "casa" com s e "caça" com ç, por que "exceção" tem x e ç na mesma palavra.

Então errar não é o ponto. O ponto é qual erro, e se ele está diminuindo.

Erros que fazem parte do processo

Estes aparecem em criança que está aprendendo normalmente e vão cedendo:

  • Trocar por regra que ela ainda não aprendeu: "caza", "estava" virando "istava".
  • Errar acentuação e pontuação.
  • Não saber quando usar h no começo da palavra.
  • Confundir palavras que soam igual: "mas" e "mais", "mim" e "min".

São erros de quem está aplicando uma lógica. A criança escreve como ouve, e escrever como se ouve é exatamente o passo anterior a aprender a convenção.

Erros que pedem atenção

Estes sugerem que algo mais básico não se consolidou:

Omissão de letras dentro da palavra. "Poblema" no lugar de "problema", "cavalo" virando "caalo". Some justamente a letra que exige perceber um som encoberto por outro.

Junção ou separação errada. "Omenino" no lugar de "o menino", "a gora" no lugar de "agora". Indica que a fronteira entre as palavras faladas ainda não está clara.

Troca de sons parecidos. Trocar f por v, p por b, t por d, dentro da palavra. São pares que se diferenciam por um detalhe sutil da articulação.

Escrita instável. A mesma palavra sai de três formas diferentes na mesma página. Isso mostra que ela não recuperou uma memória da palavra, está recalculando cada vez.

A regra não gruda. A professora explicou, ela treinou, acertou na lista de exercícios e uma semana depois errou de novo. Repetidamente.

Por que isso não é falta de leitura

Escuto muito "ele não lê, por isso escreve mal". Leitura ajuda, sim, mas a relação não é tão direta.

Existem crianças que leem bem e escrevem mal. Ler exige reconhecer a palavra inteira, e você tem a palavra na frente. Escrever exige recuperar cada letra da memória, na ordem, enquanto segura a frase inteira na cabeça. É uma operação muito mais cara.

Por isso a ortografia costuma ser a última coisa a se estabilizar, e a primeira a denunciar que a base fonológica ficou frágil.

O que ajuda em casa

Não corrija tudo. Escolher um alvo por vez rende mais. Nesta semana, só o som do R. Corrigir a página inteira de vermelho ensina que escrever é perigoso.

Separe produzir de revisar. Deixe que ela escreva livremente primeiro. A revisão vem depois, num segundo momento, como uma tarefa própria.

Ditado curto, dois minutos, com correção junto. Melhor cinco palavras por dia que uma lista de cinquenta no domingo.

Deixe que ela leia em voz alta o que escreveu. Muita criança percebe o próprio erro ao ouvir, e não ao olhar.

Guarde produções antigas. Comparar um texto de março com um de setembro é a forma mais confiável de saber se está evoluindo.

Quando investigar

Se os erros do segundo grupo persistem depois do 3º ano, se a quantidade não diminui de um ano para o outro, ou se seu filho já evita escrever, vale uma avaliação.

A avaliação psicopedagógica identifica se a raiz está na consciência fonológica, na memória da forma das palavras, na atenção durante a escrita ou no próprio ato motor de escrever. Cada uma dessas pede um trabalho diferente, e insistir no ditado quando o problema é outro consome meses sem mudar nada.

Um último lembrete para as próximas correções: ortografia é a última camada a se assentar, e ela se assenta em cima de tudo o que veio antes. Corrigir a superfície sem olhar a base rende caderno limpo e nenhuma mudança real.

Respostas rápidas

O que é disortografia?

É a dificuldade persistente com as regras da escrita, que se mantém mesmo depois de a criança já dominar a leitura. Aparece em trocas ligadas ao som, omissão de letras, junção ou separação errada de palavras e regras que não se fixam apesar de ensinadas.

Até quando é normal errar ortografia?

Erro ortográfico acompanha toda a escolarização e diminui aos poucos. O que chama atenção é a estagnação: a mesma quantidade e o mesmo tipo de erro de um ano para o outro, mesmo com correção e ensino.

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