Leitura e escrita

Minha filha troca letras ao escrever. Isso é dislexia?

Inverter b e d, p e q é esperado até por volta dos 7 anos. O que muda o quadro não é a troca em si, é a persistência e o que vem junto com ela.

Por Cristiane Rosa · · 3 min de leitura

Essa é provavelmente a pergunta que mais recebo, e quase sempre vem com a mesma cena junto: o caderno aberto na mesa, um "bola" escrito com d, e a família tentando decidir se aquilo é fase ou se é hora de procurar alguém.

A resposta curta é que trocar letras, sozinho, não diz quase nada.

Por que a inversão acontece

Nosso cérebro passa a vida aprendendo que um objeto continua sendo o mesmo objeto quando muda de posição. Uma cadeira virada de costas ainda é uma cadeira. Um copo deitado ainda é um copo. Essa habilidade é útil para tudo, menos para ler.

Na escrita, a posição é o que define a letra. O b e o d são o mesmo desenho em espelho. O p e o q também. A criança que inverte não está enxergando errado, está aplicando uma regra que funcionou a vida inteira em um sistema onde ela não vale.

Por isso a inversão é tão comum. Ela é considerada apropriada até por volta dos 7 ou 8 anos, e aparece com mais força entre os 4 e os 7, que é justamente o período em que a alfabetização acontece.

O que realmente importa observar

Não é a troca. É a trajetória.

Uma criança de 6 anos que troca b e d em metade das palavras, e que aos 7 troca em uma ou outra, está fazendo exatamente o que se espera dela. Uma criança de 9 anos que continua trocando na mesma frequência de dois anos atrás, mesmo com a escola trabalhando isso, está sinalizando outra coisa.

Três perguntas ajudam mais do que contar erros:

  1. A escrita dela melhorou nos últimos seis meses? Comparar cadernos do início e do fim do ano diz mais do que qualquer lista de sintomas.
  2. A dificuldade é só com a forma da letra, ou também com o som? Criança que não consegue perceber que "pato" e "gato" rimam, ou que não separa a palavra em pedaços falados, está mostrando algo mais profundo do que confusão visual.
  3. Ela evita escrever? Cansaço, choro, "depois eu faço", letra minúscula para esconder o erro. Isso costuma aparecer antes de qualquer diagnóstico.

Onde a dislexia entra

A dislexia não é um problema de enxergar letras ao contrário, apesar de essa ser a imagem que ficou popular. O núcleo dela está no processamento dos sons da língua, aquilo que chamamos de consciência fonológica. É a dificuldade de perceber que a palavra falada é feita de pedacinhos, e de ligar cada pedacinho ao símbolo escrito que o representa.

Por isso os sinais aparecem antes da alfabetização, ainda na educação infantil: atraso para começar a falar, dificuldade de aprender rimas e parlendas, custo para nomear cores e objetos conhecidos, confusão com noções de perto e longe, dentro e fora.

Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho. E vale dizer com todas as letras: eu não fecho esse diagnóstico. Dislexia é firmada por médico ou por equipe multiprofissional. O que eu faço é a avaliação psicopedagógica, que mapeia como sua filha aprende, onde o processo trava, e se o caso pede encaminhamento.

Quando procurar ajuda

Você não precisa esperar certeza para investigar. Procure quando:

  • a dificuldade se mantém há mais de seis meses, mesmo com a escola trabalhando o ponto;
  • a criança tem bom raciocínio em tudo, e trava especificamente na leitura e na escrita;
  • ela já começou a falar de si mesma como alguém que não consegue.

O último item é o mais urgente dos três, e o que menos aparece nas listas. Quando a criança passa a explicar o próprio fracasso, a autoestima entrou no quadro. Isso também precisa de cuidado, e quanto antes, melhor.

Nada disso fecha diagnóstico, e não precisa fechar para alguém agir. O que muda a trajetória de uma criança que ainda troca letras aos nove anos não é o nome que se dá ao problema. É alguém olhar de perto como ela lê, e ajustar o caminho a partir daí.

Respostas rápidas

Até que idade é normal a criança trocar letras ao escrever?

Inverter letras como b, d, p e q é esperado até por volta dos 7 ou 8 anos, com mais frequência entre os 4 e os 7, que é o período da alfabetização. O que importa não é a troca isolada, e sim se ela diminui com o tempo.

Trocar letras significa que a criança tem dislexia?

Não. A inversão de letras aparece em praticamente toda criança que está aprendendo a escrever. A dislexia envolve um conjunto maior de sinais, principalmente dificuldade com os sons das palavras, e persiste apesar de ensino adequado.

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